A Relatividade das Coisas

Contexto em Quarentena

Os desentendimentos entre o Pijama (=PI) e a Calças Justas (=CJ) já vêm de há algumas semanas atrás. Habituados a terem cada um o seu espaço, a sua vida própria, o seu papel nas nossas casas, tudo já de forma tão ordeira… E, subitamente tudo mudou! Passando a haver um clima de tensão nestas últimas semanas entre eles e várias outras coisas estranhas a passarem-se dentro de casa.

Antes… da quarentena

Quando antes eram dois bons amigos, dois bons convivas, que apenas dialogavam pontualmente: tudo corria bem. Lá está, cada um tinha a sua vida e só se cruzavam em conversas breves, cordiais entre eles nesses pequenos momentos em que no quarto, junto ao guarda-roupa se viam por ali. Naqueles dois momentos sociais: logo pela manhã e ao final de dia. Por vezes, em fins de semana ou feriados conviviam um pouco mais. E mesmo que a conversa azedasse, não haveria muito por onde se chatearem, porque essas cenas incómodas eram “sol de pouca dura”.

Ao fim de algum tempo, e como em tantas outras relações, também o PI e a CJ se chateavam de vez em quando, talvez por estarem agarrados à rotina, enveredando, pontualmente, por situações de desgaste. Habituados a isso, já sabiam como se iam renovando sucessivamente: um novo tecido, uma ida à tinturaria ou até mesmo uns ajustes na costureira,… tudo para cortar com a rotina e rejuvenescer a relação. Até que, algo inesperado aconteceu e veio causar grandes mudanças no seio deste longo relacionamento…

… A quarentena

A quarentena trouxe com ela longos dias de convivência permanente, que os obrigou a reequacionarem essa longa relação e também a abrirem espaço para uma nova realidade à sua volta. Para entender melhor essa nova realidade e como esta veio a afetar grandes mudanças, assistamos às conversetas entre eles, ao fim de vários dias de quarentena, para entendermos melhor o quotidiano do PI e da CJ.

Diálogo entre o PI (pijama) e a CJ (calças de ganga):

  • PI: Bom dia CJ!
  • CJ: Bom dia PI!
  • PI: Na preguiça outra vez… pelo que estou a ver! Já estamos em casa há tantos dias e tu não fazes nada!
  • CJ: Não me chateies, que estou “Depré”!
  • PI: Ai “Depré”, coisas de mulher, pois!
  • CJ: Cala-te se fazes favor!
  • PI: Não, não me calo! Há tanto tempo que nos conhecemos e agora tens essa coisa da depressão?!
  • CJ: Pois tenho, chama antes “Depré”…que dói menos…
  • PI: Pronto…”Depré” ou depressão, como queiras. Mas enquanto tu estás aí “Depré”, eu farto-me de trabalhar!!!
  • CJ: Eu sei, eu vejo!!!
  • PI: Pois, e …com tanto trabalho, mas tanto, acho que não me aguento.
  • CJ: Eu já te disse, que ainda entras em burnout!
  • PI: Mas que vida a nossa… parece que precisamos os dois de ajuda, de alguma terapia.
  • CJ: Ainda bem que falas disso, porque eu já emagreci muito de há uns dias para cá, porque perdi o apetite… sinto-me ansiosa com tudo o que mudou.
  • PI: E eu a engordar, porque de tanto trabalhar, só me apetece comer, como se a comida me ajudasse a trabalhar.
  • CJ: Olha lá e antes de ir procurar ajuda, será que há algo a fazer?
  • PI: Como CJ, como???

Mudanças dentro de casa:

  • PI: Vê bem a guerra entre os chinelos e as sapatilhas…
  • CJ: Xiii, tens razão! Nem parecem dos mesmos pés!!
  • PI: Pois tenho, estão quase como nós!
  • CJ: Yeap… E as t-shirts e as camisas!!
  • PI: Mesmo! As t-shirts ainda esticam, mas as camisas parece mesmo que encolheram.
  • CJ: Então e já reparaste no saco do ginásio, ali sozinho, e as mochilas da escola paradotas?
  • PI: Yeap…Então não somos só nós, pois não?
  • CJ: Acho que não! Até o rádio e a TV lutam para ter atenção, quando antes havia dias e dias “sem abrir pio”!
  • PI: Mas olha que o frigorífico e o forno andam estourados.
  • CJ: E a louça? Lava/suja, suja/lava, arruma/desarruma…
  • PI: A porta de casa é que não faz nada!!!
  • CJ: E as janelas andam doidas… Acho que se puseram de mal com a porta e as escadas de entrada.
  • PI: E estão a acontecer abusos com a mesa da sala!! Uma coisa tipo assédio!
  • CJ: Não estás a exagerar?
  • PI: Não… de todo!! É que vai tudo para cima delas: comida, portáteis, livros, garrafas de água, telemóveis… Aquilo tornou-se ora em sala de refeições, ora em sala de estudo, ora em salão de jogos… Vê lá que até reuniões de trabalho se lá fazem!!
  • CJ: Eina pá, um abuso mesmo!! Agora que dizes, acho que até lá se faz tele-trabalho!
  • PJ: Grave mesmo e vê bem que as cadeiras vêem tudo e não dizem nada! Elas deviam denunciar aqueles abusos.
  • CJ: Pois deviam, aquilo é mesmo uma cena de violência. É que batem os talheres, batem com os livros, com os dossiers e, às vezes, dão cada murro!!
  • PI: As salas também não vão para melhor… Ali a coisa também está feia!
  • CJ: Hum???
  • PI: Então, é chato que os quartos só trabalhem à noite quando os humanos se recolhem e a sala …trabalha todo o dia!
  • CJ: Todo mesmo!!! Agora que dizes, eles jogam basquete, andam pelos sofás, fazem yoga, saltam à corda nos tapetes…
  • PI: …E rolam bolas de fitness, meio misturadas com CD’s e DVD’s…
  • CJ: Até as chaves de casa e as chaves do carro trocam uns olhares ferozes!!!
  • PI: E os cães, já viste? Eu até me ando a passar… Passaram a ser os reis da casa!!! Até têm um olhar altivo para os humanos!!!
  • CJ: Nem me fales disso… nem posso com eles…
  • PI: Olha que vão à rua todos os dias e, confesso que ganhei inveja, porque eles optaram pelo fato de treino, aquele do MEU tamanho!!
  • CJ: Oh meu PI querido, não fiques com ciúmes… Mas será que o mundo mudou mesmo??
  • PI: Será??
  • CJ: É claro que mudou… Está tudo fora de sítio!!!
  • PI: Então e as nossas alterações de tamanho? Eu mais largo e tu mais estreita?
  • CJ: Isso nem me preocupa mais… Agora temos de resolver o meu burnout e a tua depressão sem falta.
  • PI: Como achas que podemos fazer?
  • CJ: Não sei, mas acho que precisamos de procurar ajuda fora, talvez nalguma clínica. Fora é comigo, disso entendo eu!
  • PI: Ok, eu entendo, e acho bem. Procura alguém, mas lembra-te de mim, que eu sou de poucas saídas. Eu prefiro procurar algo aqui em casa, mas on-line.

Depois desta conversa entre o PI e a CJ, certamente que se reviu nestes momentos do quotidiano, com alguma confusão ao analisar a relatividade das coisas à nossa volta que efetivamente mudaram.

Seja fora em contexto presencial, ou dentro em versão on-line, já pensou que com tantas mudanças, pode mesmo ser preciso algum apoio extra, o apoio de algum profissional?

Sente-se preparado para voltar às suas lides do quotidiano e para reingressar ao mundo do trabalho?

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