As Saudades… ao longo de um mês

Saudades e Liberdade são dois tópicos que derivam diretamente desta fase da quarentena. Assinalo hoje 1 mês deste tempo em que tenho cumprido religiosamente a ordem superior governamental: FICAR EM CASA. Antes que não quisesse, todo o trabalho que tinha até aqui era feito de forma presencial, e agora estou confinada às “4 paredes de casa.”
Tenho Saudades…
Tenho saudades… Do tempo em que circulava livremente pela minha cidade, pelos meus percursos habituais, pelo convívio das pessoas do dia-a-dia, pelas idas e voltas ao trabalho.
Tenho saudades… Do vento e da brisa que me acariciavam a face e a alma nesse tempo em que esse ar que respirava era limpo e puro… sendo para muitos de nós um dado adquirido.
Tenho saudades… Da água do mar e dos rios, dos imensos e vibrantes tons de azul que só junto do mar se conseguem ver quando assistimos à simbiose no horizonte entre ele o céu, contando com outros tantos tons e raiados de azul.
Tenho saudades… Das gotículas de água e da humidade em manhãs de início de Primavera que nos acordam e brindam com a certeza de que mais um dia chegou às nossas vidas.
Tenho saudades… De correr em dias de chuva, com aquela sensação de que se corrermos não nos molhamos, só por causa de correr e fugir dela, acabando até por nos molharmos mais.
Tenho saudades… De saciar o meu maior mimo que consiste em poder fazer tudo aquilo que me apetece, de poder escolher onde ir, com quem ir e o que fazer… e de passear livremente sem hora nem destino!!
Tenho saudades… De escutar os gritos de alegria de crianças e adolescentes a passearem na rua (sempre morei e ainda moro junto de escolas primárias ou secundárias) e de me sentir contagiada por isso.
Tenho saudades… De sentir o cheiro do café, do pão quentinho acabado de fazer, no ambiente em que se ouve ao fundo o tilintar das louças, aquele som típico das cafetarias.
Tenho saudades… Dos picos do trânsito, daquele jogo de sorte que se verifica quando na azáfama e tráfego do centro citadino, conseguimos estacionar e sentir aquela vitória interna.
Tenho saudades… De me sentir transparente no meio da multidão e dispersar naquele mundo que é só meu, quando estamos sozinhos: eu comigo própria.
Tenho saudades… De sentir a areia da praia por entre os dedos dos pés e a suavidade ao pisar a relva, e também de roubar uma flor de um qualquer jardim, apenas para sentir o aroma da flor acabada de colher.
Tenho saudades… De poder decidir sobre uma simples ida a um funeral. Perdi uma amiga que muito prezava, a Hélida Damásio, a quem não pude sequer acompanhar no seu último adeus, pelo menos em presença.
Tenho saudades… Tenho fome e sede de voltar a ter a minha liberdade de volta!
O Balanço… ao fim de um mês
Deixemo-nos agora de sentimentos nostálgicos causados por todas estas ausências, acreditando que esteja o leitor agora a fazer o seu check-list e a acrescentar algumas mais. Passo a ser agora pragmática e objetiva, porque a realidade impõe-nos que os saudosismos não entrem ainda no seu limite e aguardem um pouquinho mais… embora não saibamos ainda até quando.
Mais importante do que essa nossa vontade de reviver todas estes pequenos e simultaneamente grandes prazeres do dia-a-dia, está o valor da vida, da vida de muitas pessoas, de muitas vidas humanas. E há-de chegar esse dia, essa esperança pelo menos ninguém nos consegue tirar e se tentarem, precisamos de a agarrar “com unhas e dentes” para que ela resida e permaneça em nós.
Há que TORNAR PEQUENO aquilo que para nós até há tão pouco tempo era TÃO GRANDE e, porventura, muitos nem lhe estavam a dar o devido VALOR. Refiro-me às trivialidades, essas coisas pequenas, que fazem parte de nós e vão continuar sempre a fazer parte das nossas vidas, só que agora estão em stand-by.

Como tornar as coisas pequenas?
- Minimizar as saudades dessas pessoas do dia-a-dia e dos que nos são mais queridos, sempre que nos comunicamos, seja da maneira que for, de preferência a partilhar tontices e parvoíces que despertem o bom humor e gargalhadas fáceis.
- Usar o tempo de forma mais proveitosa: estudar novos temas, ler livros, escrever pensamentos, pesquisar coisas interessantes, cozinhar coisas novas, limpar a casa , ver filmes e… dormir.
- Recordar todos os tons de azul de céu e mar e os verdes da vegetação para encher a memória de uma palete de cores ricas e diversas com que a Natureza nos agracia.
- Aproveitar o chuveiro e o lava-loiça ou o tanque, para contactar com a água da chuva, do mar e dos rios, colocar os hidratantes e cremes de cheiro bom, e usar os detergentes que nos transportem para bons momentos.
- Viajar pelas divisões da casa e escolher em qual trabalhar, ou “borregar no sofá”, ou fazer as refeições, ou ter um momento de leitura ou estudo, ou ouvir umas músicas interessantes.
- Ver criteriosamente as notícias, mas de forma regrada e incisiva, para não levantar grandes nervosismos nem alarmismos, lembrando que não podemos evitar os factos existentes e reais.
- Fazer muitas gulodices e pratos diferentes, para manter a falsa sensação de rotina, porque o nosso corpo pede variedade de alimentos, usando cores e temperos, como se estivéssemos na tal cafetaria ou restaurante e sentirmos na mesma que a nossa fome é saciada.
- Amassar nós o pão, para irmos buscar o tal cheirinho de pão acabado de fazer com manteiga, arrancar as ervas daninhas dos jardim ou dos vasos e semear quem tiver condições para tal.
A liberdade está na nossa mente!
Ou seja, a realidade existe, só podemos é torná-la menor, de um tamanho que consigamos vê-la mais atentamente, de igual para igual, e, de forma serena e tranquila a podermos analisar, opinar e não deixarmos que seja ela a exercer poder sobre nós.
Todos temos a capacidade de imaginar o que quisermos. E, se quisermos, podemos imaginar da janela aqueles dias de movimento citadino, em hora de ponta, com toda uma vida lá fora e tudo o resto que a nossa mente desejar. Essa capacidade de imaginar vai-nos permitir ter a LIBERDADE que nos é possível. Essa liberdade física que nos foi tirada, por força das leis impostas a nosso favor, nessa condição de estarmos presos do perigo que existe lá fora, confinados a este isolamento social.
Para já, sinto-me muito grata de poder viver toda esta liberdade, de poder dizer o que sinto, através das palavras, da democracia em que vivemos. Sendo ainda mais bizarro, que todos estaremos livres e somos livres, para festejar o próximo 25 de Abril, o dia de maior simbolismo nacional a propósito de LIBERDADE, na maior das “liberdades caseiras”. E que bom que é termos essa oportunidade!
Cabe-nos esperar tranquilamente, serenamente, sabiamente e pacientemente,… esse dia que vai chegar!! Tenho a certeza que vai chegar! E aí seremos finalmente LIVRES e mataremos todas as SAUDADES!

Olá formadora Dina,
Parabéns pelo concretizar do seu projecto, desejo que cresça além fronteiras!
É verdade que esta quarentena pode servir para criar algo positivo, pelo menos tem sido dessa forma que a tenho encarado.
Um beijinho,
Sandra Santos (Pombal)
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